Convencer-me de quem eu sou

abril 30, 2016


Aquele dia quente, bruto e selvagem chegou arranhando a garganta apertada. Refazendo os passos mal dados dentro das diversas praças.
A correria feia das pessoas ao redor, os sons malucos que vinham de diversos lados, risos perturbados, gritos e olhares exaltados.
Aquela confusão toda corria nas veias, "será que", "se eu fizer", "não acredito", "estúpida". As palavras corroíam o sangue pulsante e feroz, a cabeça girava junto com o peito vibrante e fugaz.
Era tudo incapaz, era tudo um ato ridículo, impensado, impulsionado.
As botas sujas de terra, urina, bebidas e aquela areia fina da praia. A blusa querendo sair, correr da pele, nada disso cabia ocorrer ali. Nada disso cabia ocorrer aqui dentro.

Eu sou iníqua, um monstrinho com dentes tortos, uma pessoa que não mede consequências e alguém que se perde no inexistente.

Aquele dia apagou todas as convicções do certo e errado. Tudo é errado. Tudo.
As escolhas feitas, o perfume usado, a cor do cabelo, a largura de um sorriso, o som forte de um riso.
Tudo estava perdido e errado.

E dentro daquele carro, passando as diversas luzes, calmaria, madrugada, escuridão.
Eu descobri.
Eu descobri que não sei realmente quem sou, eu não sei quem quero ser e onde quero chegar.
Eu perco o lápis, o óculos, o carregador, meu cabo usb, o livro, perco tudo e todos.
Me achava uma pessoa sã e complexa.
Mas sou lodo, esquivo, difuso.
Eu sou nada.
 
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